domingo, 18 de dezembro de 2011

Sangue para colorir a neve

O Alasca nunca havia sido hospitaleiro para aquele policial humilde do sul do Colorado. A transferência para um novo departamento de polícia pareceu-lhe, num primeiro momento, a porta de entrada para uma vida nova e promissora. Triste engano. Lá estava o pobre sargento Dickens, passando frio, ganhando pouco e tendo que cumprir missões ainda piores.
Interrogue aquele canalha de todas as maneiras possíveis, dissera-lhe o chefe. Ele está envolvido com lavagem de dinheiro, roubo a banco e mais outras coisas – assim dizia o chefe quando lhe faltavam argumentos – que eu não lembro. E o fiel militar seguia, com a pistola na cintura, rumo à casa de um dos empresários mais bem sucedidos da região. Ele é pai de família, pensou Dickens. Um inocente que nem tem ideia das respostas para as minhas perguntas.
O fato de ele estar prestes a invadir um domicílio, violar uma privacidade e aterrorizar uma pessoa (idéia que jamais lhe ocorreria) apenas porque alguém – nem melhor, nem pior do que ele, apenas com mais divisas na farda – havia lhe ordenado revoltava-lhe o estômago. Subindo aquelas colinas cobertas de neve, ele maldisse o momento em que escolheu a profissão.
Parou em frente ao portão. Tomou uma atitude, antes que a indecisão lhe dominasse. Alguns minutos depois lá estava Dickens, apontando uma pistola para um temeroso empresário que, como já era sabido pela polícia, estaria sozinho em casa naquele momento. Ao fazer as perguntas, a voz lhe saía com uma rispidez falsa, forçada. Dickens não queria estar ali. Aquilo não era pra ele.
Contrariando as expectativas da polícia, o empresário não tentou fugir. Recuou alguns passos e disse, com voz trêmula: 
- Ninguém vai arrancar nenhuma informação de mim. - Dizendo isto, puxou de dentro do casaco uma faca e cortou a própria garganta.
         Dickens, paralisado, esperava sua mente processar o horror que se desenhara perante seus olhos. Instantes depois, tomado pelo mais selvagem arrependimento de todos, fugiu correndo da mansão. As colinas cobertas por neve, que antes haviam visto um militar decidido, agora viam uma alma atormentada que andava a esmo, cambaleante. Ele morreu, pensava Dickens. Eu sou o culpado.
         Agora parecia que quem tinha segurado a faca naquele trágico momento era o próprio Dickens. Mãos selvagens. Eu sou um monstro. Transtornado e à beira da loucura, o policial viu, na pistola que segurava, a saída para o seu tormento. Pressionou o cano da arma contra o próprio crânio, e maldisse novamente o momento em que escolheu a profissão.
Ouviu-se um tiro, e o sangue de um policial arrependido - do que não fez – coloriu a neve daquela noite.

Um comentário:

  1. Devo dizer que gostei do fato de ter 'neve' no título e corri pra ler, hehuehu, mas não fazia idéia de que ia ler algo tão bom *-* , sério, não sabia que tu escrevia tanto (e não vai interpretar isso como 'ah, ela pensava que eu não escrevia bem D: , tu entendeu u_ú ) haha! =*

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