Nada muito incomum para quem
visse de longe. O senhor idoso e sua esposa sendo levados pelo genro para
passear, visitar parentes na zona rural de uma cidade do interior. A
hospitalidade sendo posta em prática, o chimarrão amigo sendo passado de mão em
mão. Mas para aquele senhor idoso, dentro do íntimo da sua mente, havia algo a
mais.
As mais de
oito décadas de vida haviam lhe proporcionado experiências das mais diversas.
Já havia sido um garoto trabalhador de uma pequena propriedade rural
extremamente humilde dos pais, um soldado do exército – destaque da tropa, por
sinal – aos 18 anos, um auxiliar de construções civis, eletricista, agricultor
pela segunda vez, pai, avô. Naquele momento, naquela casa, havia diante de seus
olhos um pedaço do seu passado mais distante. A irmã, com seus 85 anos de
idade, sofria de mal de Alzheimer, e tinha sérias dificuldades para
reconhecê-lo.
Ele senta-se
ao lado da irmã, e a olha nos olhos. Estão vazios, distantes, são olhos de
alguém que mal sabe o que faz ali. A voz que sai da boca do idoso é acompanhada
de um amor incondicional:
- Lembra de
mim, maninha?
A resposta vem
depois de um longo silêncio:
- Eu... eu não
sei...
- Lembra sim.
Lembra de quando trabalhávamos com nossos pais na lavoura, enquanto cantávamos
os sucessos do momento? Lembra dos bailes, dos meninos que lhe tiravam para
dançar?
- Você... é
meu irmão?
- Sim. O irmão
que fazia você rir quando papai nos deixava de castigo e você chorava. E que
agora vem aqui sempre que pode, na esperança de ser lembrado.
Agora lágrimas
saiam dos olhos daquela senhora, e percorriam-lhe a face.
- Vilson...
- Sim, sou eu.
- Eu te amo,
maninho.
O abraço que veio
em seguida foi o retrato de um afeto fraternal que superou décadas, idas e
vindas, caprichos da existência, e se manteve. Perto dali, observando quieto,
um adolescente de dezessete anos, neto de Vilson, assistia àquela memorável lição
de vida.
Baseado em fatos reais
Muito bonito (:
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