sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Irmãos, não importa o que aconteça


          Nada muito incomum para quem visse de longe. O senhor idoso e sua esposa sendo levados pelo genro para passear, visitar parentes na zona rural de uma cidade do interior. A hospitalidade sendo posta em prática, o chimarrão amigo sendo passado de mão em mão. Mas para aquele senhor idoso, dentro do íntimo da sua mente, havia algo a mais.
As mais de oito décadas de vida haviam lhe proporcionado experiências das mais diversas. Já havia sido um garoto trabalhador de uma pequena propriedade rural extremamente humilde dos pais, um soldado do exército – destaque da tropa, por sinal – aos 18 anos, um auxiliar de construções civis, eletricista, agricultor pela segunda vez, pai, avô. Naquele momento, naquela casa, havia diante de seus olhos um pedaço do seu passado mais distante. A irmã, com seus 85 anos de idade, sofria de mal de Alzheimer, e tinha sérias dificuldades para reconhecê-lo.
Ele senta-se ao lado da irmã, e a olha nos olhos. Estão vazios, distantes, são olhos de alguém que mal sabe o que faz ali. A voz que sai da boca do idoso é acompanhada de um amor incondicional:
               
- Lembra de mim, maninha?
A resposta vem depois de um longo silêncio:
- Eu... eu não sei...
- Lembra sim. Lembra de quando trabalhávamos com nossos pais na lavoura, enquanto cantávamos os sucessos do momento? Lembra dos bailes, dos meninos que lhe tiravam para dançar?
- Você... é meu irmão?
- Sim. O irmão que fazia você rir quando papai nos deixava de castigo e você chorava. E que agora vem aqui sempre que pode, na esperança de ser lembrado.
Agora lágrimas saiam dos olhos daquela senhora, e percorriam-lhe a face.
- Vilson...
- Sim, sou eu.
- Eu te amo, maninho.
O abraço que veio em seguida foi o retrato de um afeto fraternal que superou décadas, idas e vindas, caprichos da existência, e se manteve. Perto dali, observando quieto, um adolescente de dezessete anos, neto de Vilson, assistia àquela memorável lição de vida.

                                                                                                                                                                       
                                        Baseado em fatos reais

domingo, 18 de dezembro de 2011

Sangue para colorir a neve

O Alasca nunca havia sido hospitaleiro para aquele policial humilde do sul do Colorado. A transferência para um novo departamento de polícia pareceu-lhe, num primeiro momento, a porta de entrada para uma vida nova e promissora. Triste engano. Lá estava o pobre sargento Dickens, passando frio, ganhando pouco e tendo que cumprir missões ainda piores.
Interrogue aquele canalha de todas as maneiras possíveis, dissera-lhe o chefe. Ele está envolvido com lavagem de dinheiro, roubo a banco e mais outras coisas – assim dizia o chefe quando lhe faltavam argumentos – que eu não lembro. E o fiel militar seguia, com a pistola na cintura, rumo à casa de um dos empresários mais bem sucedidos da região. Ele é pai de família, pensou Dickens. Um inocente que nem tem ideia das respostas para as minhas perguntas.
O fato de ele estar prestes a invadir um domicílio, violar uma privacidade e aterrorizar uma pessoa (idéia que jamais lhe ocorreria) apenas porque alguém – nem melhor, nem pior do que ele, apenas com mais divisas na farda – havia lhe ordenado revoltava-lhe o estômago. Subindo aquelas colinas cobertas de neve, ele maldisse o momento em que escolheu a profissão.
Parou em frente ao portão. Tomou uma atitude, antes que a indecisão lhe dominasse. Alguns minutos depois lá estava Dickens, apontando uma pistola para um temeroso empresário que, como já era sabido pela polícia, estaria sozinho em casa naquele momento. Ao fazer as perguntas, a voz lhe saía com uma rispidez falsa, forçada. Dickens não queria estar ali. Aquilo não era pra ele.
Contrariando as expectativas da polícia, o empresário não tentou fugir. Recuou alguns passos e disse, com voz trêmula: 
- Ninguém vai arrancar nenhuma informação de mim. - Dizendo isto, puxou de dentro do casaco uma faca e cortou a própria garganta.
         Dickens, paralisado, esperava sua mente processar o horror que se desenhara perante seus olhos. Instantes depois, tomado pelo mais selvagem arrependimento de todos, fugiu correndo da mansão. As colinas cobertas por neve, que antes haviam visto um militar decidido, agora viam uma alma atormentada que andava a esmo, cambaleante. Ele morreu, pensava Dickens. Eu sou o culpado.
         Agora parecia que quem tinha segurado a faca naquele trágico momento era o próprio Dickens. Mãos selvagens. Eu sou um monstro. Transtornado e à beira da loucura, o policial viu, na pistola que segurava, a saída para o seu tormento. Pressionou o cano da arma contra o próprio crânio, e maldisse novamente o momento em que escolheu a profissão.
Ouviu-se um tiro, e o sangue de um policial arrependido - do que não fez – coloriu a neve daquela noite.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Comentário de álbum: AC/DC - The Razor's Edge







      Recomendado para todos que simpatizam com AC/DC. Abrem-se os trabalhos com um dos maiores hinos já compostos pela banda, a vibrante "Thunderstruck". Essa canção consegue a façanha de trazer, através da gravação, uma ótima representação do que é o AC/DC ao vivo. Nota-se a progressão, adição gradual de instrumentos, até chegar no refrão empolgante e no "corpo" da música em si, que contém traços do mais puro Rock N' Roll que só eles sabem fazer.
    Logo depois, na segunda faixa, temos uma canção razoavelmente desconhecida, mas portadora de riffs matadores e de uma instrumentação complexa e arrojada. "Fire Your Guns" é agressiva, e soa com as características definidoras do AC/DC. Como se não bastasse, já na terceira faixa vem mais um hit: a memorável "Moneytalks", cujo refrão é de fácil aprendizado, fazendo multidões cantarem junto com a banda.
       Sucedendo "Moneytalks", temos uma música cuja introdução foge um pouco aos parâmetros tradicionais da banda em questão. Na homônima "The Razor's Edge", cria-se uma espécie de "clima tenso", com as guitarras soando demoradamente. A música cresce aos poucos, para assumir a forma de mais uma grande canção da lendária banda australiana. Depois, temos "Mistress For Christmas", "Rock Your Heart Out" e "Are You Ready", com um destaque especial para esta última: a forma surpreendente como a música começa.
        "Got You By The Balls" e "Shot Of Love" endossam a parte, digamos, "sexual" do álbum com suas letras. O fechamento da obra fica por conta de "Let's Make It", "Goodbye and Good Riddance to Bad Luck" e "If You Dare", três músicas igualmente épicas, que se igualam à qualidade do restante do álbum. 

        The Razor's Edge: uma obra a ser apreciada. 

        

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Relação Roqueiros-Outros estilos

Já cansei de ver, nos comentários de inúmeros vídeos de Rock do YouTube, roqueiros que mais pareciam guerrilheiros fanáticos defendendo seu exército. Dizendo que o Rock é um nível superior, que os outros estilos de música não prestam, são males a serem combatidos. Creio que o assunto não deve ser tratado de uma forma tão extrema, e que o que existe, na verdade, são diferenças, e não uma relação superior-inferior, superior-subalterno.
A qualidade da música está na sua instrumentação, na harmonia, na letra bem escrita. Estes aspectos podem ser encontrados em diversos estilos musicais, tais como Pop, Country, Jazz, MPB, Sertanejo e Samba de raiz, entre outros. Para muitos roqueiros com o referido "pensamento radical", ouvir samba ou sertanejo pode parecer algo inimaginável. Mas o segredo é saber aproveitar a boa música, extraindo dela o que ela tem de bom para oferecer, os bons sentimentos que ela tem a proporcionar. A música que é fruto da genialidade, do trabalho suado e esforçado, deve ser reconhecida. Se ouvirmos com atenção e "aprendermos a gostar", estaremos adicionando cultura e conhecimento musical às nossas vidas.
A música bem elaborada deve ser ouvida, apreciada, no mínimo respeitada. Música é arte, e a arte é linda quando bem feita. 

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

República, política, governantes...

       Dia 15 de Novembro foi aniversário da proclamação da república.  São 122 anos de histórias conturbadas, felizes, desastrosas, bonitas, curiosas. Em muitas ocasiões, a nossa República fugiu à sua definição tradicional de “Coisa Pública” para tornar-se palco do triunfo de minorias, como nos conhecidos casos da “política do café-com-leite”, da ditadura militar e dos escândalos de corrupção que ocorreram no século em que vivemos. A política oscila muito – fato que se materializa diante dos nossos olhos ao estudarmos história - fazendo com que seja praticamente impossível agradar todos os grupos sociais ao mesmo tempo. Mas no momento em que o problema social não deriva do caráter oscilatório da política, mas sim do mau caráter dos administradores, os quais priorizam o individual em detrimento do coletivo (social), aí se deve repensar.
Quando um governante dá um pouco menos de atenção a determinado setor social para que outras necessidades da nação sejam atendidas (e aí se pode tomar como exemplo presidentes que favoreceram a industrialização e não priorizaram as reformas de base, como JK), apesar dos descontentamentos provenientes do setor desfavorecido (que podem até vir a derrubar o detentor do poder), pode-se dizer que o governante não foi de todo ruim, pois pensou no bem da nação, à sua maneira. O caso crítico a que me refiro é quando a má administração é fruto da ganância de um político que prioriza o seu bolso, enquanto cidadãos morrem esperando atendimento hospitalar, ou sofrem com a insegurança nas ruas, decorrente de investimentos mal direcionados.
É extremamente difícil visualizar, com precisão, o gerador desse problema. A corrupção é um aspecto que deriva do caráter, da essência da personalidade do indivíduo. Além desse fator problemático, existe outra pergunta a se fazer: estaria Brasília “projetada” para corromper os que chegam ao poder? O deputado, senador, ministro ou até presidente que assume acaba, inevitavelmente, tendendo à corrupção por não ter opção melhor? Se estiver assim a situação, temo pelo futuro do nosso país. Necessitaríamos de mudanças extremamente drásticas, revolucionárias. E nunca se sabe qual seria o preço a se pagar para mudar tão drasticamente.  
Resta agora torcer pelo aparecimento de mentes altruístas, de políticos com visão ampla e vontade de fazer o país evoluir. Que não haja mais dinheiro público parado em pouquíssimas mãos, mas sim aplicado, agindo, fazendo algo de bom. E viva a República.