terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Os dois Metallicas


       Os mais fiéis ao Trash Metal clássico hão de concordar comigo. Há dois Metallicas: um antes e outro depois do “Black Album”. A obra que contém clássicos como “Enter Sandman” e “Nothing Else Matters” é uma transição da fase “old-school” da banda para uma fase com mais liberalismo musical e experimentação.
        Comecemos analisando os primórdios. O álbum “Kill ‘em All” nos traz um Trash Metal puro, “nu e cru”, com riffs matadores e letras abordando violência. A sonoridade é suja e áspera, e os vocais de James são gritados e agressivos. É a voz de um James jovem, sendo mais aguda do que o observado em outros álbuns.
      Posteriores ao “Kill ‘em All”, temos “Ride the Lightning”, “Master of Puppets” e “... and Justice for All”. Nestas obras, a tendência da agressividade e da pureza do Trash Metal em sua essência é mantida, mas observa-se um aumento gradativo na complexidade das composições e na média de duração das músicas. Exemplo disso são as canções “For Whom the Bell Tolls”, “Ride the Lightning”, “Fade to Black”, “Battery”, “Welcome Home (Sanitarium)”, “Orion”, “One”, e “... and Justice for All”, nas quais temos várias quebras de ritmo, solos e diferentes andamentos rítmicos na mesma música. Percebe-se também um certo “amadurecimento” na voz de Hetfield, a qual vai abandonando os agudos estridentes do Kill ‘em All.
     Chegamos, então, ao Black Album. Berço de quatro dos maiores hits do Metallica: “Enter Sandman”, “Sad but True”, “The Unforgiven” e “Nothing Else Matters”. A transição mencionada anteriormente é evidenciada pela cara mais “comercial” que as músicas começam a tomar. Aparecem as primeiras canções da banda que podem realmente ser taxadas como baladas. A média de duração das músicas já diminui, tendo 6 minutos e 49 segundos a mais longa delas (“My Friend of Misery”, que é pouco conhecida). Foi o álbum mais trabalhoso para fazer até então, mas catapultou a fama da banda a níveis extraordinários. Ao mesmo tempo, pôs a “pulga atrás da orelha” dos fãs do estilo Trash Metal old-school.
         A partir daí, o Metallica assumiu de vez o novo jeito de fazer música, nos álbuns “Load” e “Reload”. Um estilo bem distante do old-school do “Kill ’em All” e do “Ride the Lightning”. A sonoridade das músicas mudou, tanto no formato das composições quanto no timbre das guitarras. A voz de James também está mudada, desta vez bem mais sólida e... “madura”. Outra curiosidade fica por conta dos volumes das músicas. Talvez para causar mais impacto, as músicas do “Load” (e também dos álbuns que vieram depois) foram gravadas com um volume um pouco maior. Experimente ouvir uma música do “Kill ‘em All” e uma do “Load” sem alterar o volume do player.
         No geral, quem era apaixonado pelo Metallica antigo ficou ainda mais revoltado. Muitos chamaram (e ainda chamam) a banda de “vendida”. A verdade é que o Black Album foi um divisor de águas. No álbum “Death Magnetic”, de 2008, recuperou-se a brutalidade do som do Metallica, com músicas longas (a mais curta é “My Apocalipse”, com 5 minutos), agressivas e pesadas (todas elas). Mas mesmo assim a dualidade antes/depois do Black Album é inegável. O que importa é que os caras garantiram o seu lugar entre os deuses do Rock, e sempre serão lembrados pelas canções lendárias que agitam multidões pelo mundo inteiro.

domingo, 8 de janeiro de 2012

Deus segundo Spinoza


O texto abaixo não é de minha autoria. Diz-se que foi escrito pelo filósofo Baruch Spinoza (1632-1677), mas há muitas controvérsias sobre a sua autoria. Achei interessante divulgá-lo aqui, visto que apresenta uma visão singular sobre religião, com a qual concordei em vários aspectos.



“Pára de ficar rezando e batendo o peito! O que eu quero que faças é que saias pelo mundo e desfrutes de tua vida. Eu quero que gozes, cantes, te divirtas e que desfrutes de tudo o que Eu fiz para ti.
Pára de ir a esses templos lúgubres, obscuros e frios que tu mesmo construíste e que acreditas ser a minha casa.
Minha casa está nas montanhas, nos bosques, nos rios, nos lagos, nas praias. Aí é onde Eu vivo e aí expresso meu amor por ti.
Pára de me culpar da tua vida miserável: Eu nunca te disse que há algo mau em ti ou que eras um pecador, ou que tua sexualidade fosse algo mau.
O sexo é um presente que Eu te dei e com o qual podes expressar teu amor, teu êxtase, tua alegria. Assim, não me culpes por tudo o que te fizeram crer.
Pára de ficar lendo supostas escrituras sagradas que nada têm a ver comigo. Se não podes me ler num amanhecer, numa paisagem, no olhar de teus amigos, nos olhos de teu filhinho... Não me encontrarás em nenhum livro!
Confia em mim e deixa de me pedir. Tu vais me dizer como fazer meu trabalho?
Pára de ter tanto medo de mim. Eu não te julgo, nem te critico, nem me irrito, nem te incomodo, nem te castigo. Eu sou puro amor.
Pára de me pedir perdão. Não há nada a perdoar. Se Eu te fiz... Eu te enchi de paixões, de limitações, de prazeres, de sentimentos, de necessidades, de incoerências, de livre-arbítrio. Como posso te culpar se respondes a algo que eu pus em ti? Como posso te castigar por seres como és, se Eu sou quem te fez? Crês que eu poderia criar um lugar para queimar a todos meus filhos que não se comportem bem, pelo resto da eternidade? Que tipo de Deus pode fazer isso?
Esquece qualquer tipo de mandamento, qualquer tipo de lei; essas são artimanhas para te manipular, para te controlar, que só geram culpa em ti. Respeita teu próximo e não faças o que não queiras para ti. A única coisa que te peço é que prestes atenção a tua vida, que teu estado de alerta seja teu guia.
Esta vida não é uma prova, nem um degrau, nem um passo no caminho, nem um ensaio, nem um prelúdio para o paraíso. Esta vida é o único que há aqui e agora, e o único que precisas.
Eu te fiz absolutamente livre. Não há prêmios nem castigos. Não há pecados nem virtudes. Ninguém leva um placar. Ninguém leva um registro.
Tu és absolutamente livre para fazer da tua vida um céu ou um inferno.
Não te poderia dizer se há algo depois desta vida, mas posso te dar um conselho. Vive como se não o houvesse. Como se esta fosse tua única oportunidade de aproveitar, de amar, de existir. Assim, se não há nada, terás aproveitado da oportunidade que te dei.
E se houver, tem certeza que Eu não vou te perguntar se foste comportado ou não. Eu vou te perguntar se tu gostaste, se te divertiste... Do que mais gostaste? O que aprendeste?
Pára de crer em mim - crer é supor, adivinhar, imaginar. Eu não quero que acredites em mim. Quero que me sintas em ti. Quero que me sintas em ti quando beijas tua amada, quando agasalhas tua filhinha, quando acaricias teu cachorro, quando tomas banho no mar.
Pára de louvar-me! Que tipo de Deus ególatra tu acreditas que Eu seja?
Me aborrece que me louvem. Me cansa que agradeçam. Tu te sentes grato? Demonstra-o cuidando de ti, de tua saúde, de tuas relações, do mundo. Te sentes olhado, surpreendido?... Expressa tua alegria! Esse é o jeito de me louvar.
Pára de complicar as coisas e de repetir como papagaio o que te ensinaram sobre mim. A única certeza é que tu estás aqui, que estás vivo, e que este mundo está cheio de maravilhas. Para que precisas de mais milagres? Para que tantas explicações?
Não me procures fora!
Não me acharás.
Procura-me dentro... aí é que estou, batendo em ti.
Baruch Spinoza.

sábado, 7 de janeiro de 2012

Heterogênea e desigual sempre.

      Em todos os lugares, a todo momento, ouvimos pessoas falando que o mundo está um caos, que a sociedade é injusta, que é necessário uma mudança drástica no sistema vigente – por “sistema” entenda-se estrutura socioeconômica, estrutura política. Queixar-se dos problemas do mundo atual tornou-se tão comum quanto respirar.         Muitos reclamam da desigualdade social, mas exterminá-la completamente é impossível.
A desigualdade ocorre principalmente devido ao surgimento do modo de produção capitalista, o qual fez entrar em cena a competição. Competição pelo crescimento individual, pela ascenção social, para sermelhor do que os outros. Tendo isto como problema a ser resolvido, a proposta de situação ideal fica óbvia: uma sociedade sem desigualdades. Mas seria isto possível? E se alcançássemos esta situação, ela duraria por muito tempo?
     A desigualdade não se originou única e exclusivamente por causa do capitalismo. Ela é fruto, também, das diferenças entre as próprias pessoas. Algumas sabem administrar melhor o dinheiro, tendo sucesso, abrindo um negócio, tomando posse de meios de produção; outras não sabem o que fazer com o que tem, acabam falindo e tendo que se submeter a uma sociedade onde quem tem mais posses domina. Tendo ciência dessas diferenças, imaginemos uma sociedade sem desigualdades. Ao passar de alguns anos, começariam a surgir diferenças, oriundas da capacidade de progredir – ou regredir – economicamente das pessoas. Quem ganha dinheiro e sabe administrá-lo, passa a ganhar ainda mais. Logo, as diferenças cresceriam exponencialmente. Adeus, sociedade perfeita.
        Alguns sugerem, então, o socialismo. Forçar as pessoas a serem iguais, tirando-lhes o direito à propriedade privada. Se bem aplicado, o socialismo supre as necessidades básicas de todos, o que seria ótimo. Mas... supre as necessidades básicas. As pessoas vão passar a querer mais, e isso poderia causar revolta. O “pacote” do socialismo inclui também uma economia planificada, o que, no contexto atual globalizado, está longe de ser uma boa ideia.
      O homem quer sempre evoluir economicamente, e isso se dá, muitas vezes, às custas de outros. A desigualdade acaba sendo uma praga, que tem vida própria, reproduz-se inevitavelmente. Ao que parece, estamos fadados a conviver com isso. O jeito é tentar amenizar, o máximo possível.