Os mais fiéis ao Trash Metal clássico
hão de concordar comigo. Há dois Metallicas: um antes e outro depois do “Black
Album”. A obra que contém clássicos como “Enter Sandman” e “Nothing Else
Matters” é uma transição da fase “old-school” da banda para uma fase com mais
liberalismo musical e experimentação.
Comecemos analisando os primórdios. O
álbum “Kill ‘em All” nos traz um Trash Metal puro, “nu e cru”, com riffs matadores e letras abordando
violência. A sonoridade é suja e áspera, e os vocais de James são gritados e
agressivos. É a voz de um James jovem, sendo mais aguda do que o observado em
outros álbuns.
Posteriores ao “Kill ‘em All”, temos
“Ride the Lightning”, “Master of Puppets” e “... and Justice for All”. Nestas
obras, a tendência da agressividade e da pureza do Trash Metal em sua essência
é mantida, mas observa-se um aumento gradativo na complexidade das composições
e na média de duração das músicas. Exemplo disso são as canções “For Whom the
Bell Tolls”, “Ride the Lightning”, “Fade to Black”, “Battery”, “Welcome Home
(Sanitarium)”, “Orion”, “One”, e “... and Justice for All”, nas quais temos
várias quebras de ritmo, solos e diferentes andamentos rítmicos na mesma
música. Percebe-se também um certo “amadurecimento” na voz de Hetfield, a qual
vai abandonando os agudos estridentes do Kill ‘em All.
Chegamos, então, ao Black Album. Berço
de quatro dos maiores hits do Metallica: “Enter Sandman”, “Sad but True”, “The
Unforgiven” e “Nothing Else Matters”. A transição mencionada anteriormente é
evidenciada pela cara mais “comercial” que as músicas começam a tomar. Aparecem
as primeiras canções da banda que podem realmente ser taxadas como baladas. A
média de duração das músicas já diminui, tendo 6 minutos e 49 segundos a mais
longa delas (“My Friend of Misery”, que é pouco conhecida). Foi o álbum mais
trabalhoso para fazer até então, mas catapultou a fama da banda a níveis
extraordinários. Ao mesmo tempo, pôs a “pulga atrás da orelha” dos fãs do
estilo Trash Metal old-school.
A partir daí, o Metallica assumiu de
vez o novo jeito de fazer música, nos álbuns “Load” e “Reload”. Um estilo bem
distante do old-school do “Kill ’em All” e do “Ride the Lightning”. A
sonoridade das músicas mudou, tanto no formato das composições quanto no timbre
das guitarras. A voz de James também está mudada, desta vez bem mais sólida
e... “madura”. Outra curiosidade fica por conta dos volumes das músicas. Talvez
para causar mais impacto, as músicas do “Load” (e também dos álbuns que vieram
depois) foram gravadas com um volume um pouco maior. Experimente ouvir uma
música do “Kill ‘em All” e uma do “Load” sem alterar o volume do player.
No geral, quem era apaixonado pelo
Metallica antigo ficou ainda mais revoltado. Muitos chamaram (e ainda chamam) a
banda de “vendida”. A verdade é que o Black Album foi um divisor de águas. No
álbum “Death Magnetic”, de 2008, recuperou-se a brutalidade do som do
Metallica, com músicas longas (a mais curta é “My Apocalipse”, com 5 minutos), agressivas
e pesadas (todas elas). Mas mesmo assim a dualidade antes/depois do Black Album
é inegável. O que importa é que os caras garantiram o seu lugar entre os deuses
do Rock, e sempre serão lembrados pelas canções lendárias que agitam multidões
pelo mundo inteiro.